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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Docat: o que inspirou o Papa Francisco a publicar um catecismo para os jovens sobre a Doutrina Social da Igreja?

img_3395O padre jesuíta Joseph D. Fessio, aqui entrevistado, é o fundador e editor da Ignatius Press em San Francisco. Ex-aluno da Escola Preparatória Bellarmine, de San Jose, na Califórnia, ele estudou engenharia civil na Santa Clara University por três anos antes de entrar para a Companhia de Jesus em 1961. Possui doutorado em teologia pela Universidade de Regensburg, Alemanha, onde o então padre Joseph Ratzinger (mais tarde, Papa Bento XVI) orientou sua dissertação sobre eclesiologia em Hans Urs von Balthasar.

Na Jornada Mundial da Juventude em Cracóvia, o Papa Francisco lançou oficialmente o Docat, um catecismo jovem sobre a Doutrina Social da Igreja que reúne vários documentos magisteriais e papais. Assim como aconteceu com o Youcat apresentado pelo Papa Bento XVI na Jornada em 2011, mais uma vez a Ignatius Press foi escolhida como uma das várias casas editoriais internacionais a publicar o Docat.

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O que inspirou o Papa Francisco a publicar um catecismo para os jovens sobre a Doutrina Social da Igreja e como foi o seu envolvimento?

Na verdade, se o Papa Francisco teve inspiração, isto ocorreu post factum [após o fato]. O Docat já havia sido pensado, e sua escrita já tinha sido começada, antes da eleição dele ao papado. No entanto, com certeza é uma feliz coincidência que o Docat tenha se alinhado tão bem com os seus interesses e prioridades.


O meu envolvimento no Youcat e agora com o Docat tem uma história singular: o Cardeal Christoph Schönborn e eu somos amigos desde que moramos juntos no Schottenkolleg (à época, o seminário diocesano) em Regensburg nos anos de 1973 e 1974 como alunos do então professor Ratzinger. Na década de 1990, ele pediu minha ajuda para a tradução inglesa do Catecismo da Igreja Católica. Depois da publicação do Catecismo, ele estava fazendo uma apresentação em sua Arquidiocese de Viena e, durante uma sessão de perguntas e respostas, uma mulher se levantou e disse com todas as palavras: “Essa publicação maravilhosa. Mas é para os adultos. E os mais jovens? Eles precisam de um catecismo também”.

Schönborn respondeu concordando com ela, porém dizendo que era necessário ser um catecismo não “para” mas também com a participação dos jovens. A mulher organizou dois programas de férias com os jovens para trabalhar na adaptação do Catecismo. A ela se juntou Bernhard Meuser, editor alemão e jovem catequista. A partir disso nasceu oYoucat.

Como a Ignatius Press acabou sendo a editora do Youcat e agora do Docat?

Quando Bernhard me contatou para ver se a Ignatius Press estaria interessada em ser a editora da edição mundial em língua inglesa, achei que era por causa do Cardeal Schönborn. Mas não era este o caso.

Eu tinha sido convidado para dar uma palestra em Torun, na Polônia, e enquanto estava aí fui entrevistado por um jornalista que trabalhava para uma revista católica alemã chamada Vatikan. Ele me perguntou sobre as origens da Ignatius Press. Expliquei que, durante os meus estudos teológicos na Europa, não somente me familiarizei com teólogos como de Lubac, von Balthasar, Bouyer e Ratzinger, mas também pela primeira vez tinha começado a beber vinho (na França) e cerveja (na Baviera).

Depois quer voltei aos Estados Unidos, provei pela primeira vez uma cerveja americana. Cuspi fora e disse: “Se isso se chama cerveja, então preciso de um outro nome para dar àquilo que bebi na Baviera”. (Isso aconteceu pouco tempo antes da revolução ocorrida com as microcervejarias.) Mais tarde, eu estava dando um retiro e citei Lubac,Balthasar, e outros, e uma irmã me perguntou se existiam teólogos americanos importantes. Contei a ela essa história das cervejas e disse que, embora havia alguns teólogos muito bons nos EUA (mencionei Avery Dulles, evidentemente), mesmo assim, se formos chamá-los teólogos, precisaremos de um outro nome para os gigantes que estudei na Europa.

Concluí a entrevista dizendo que a Ignatius Press foi fundada em 1979 para que os escritos destes teólogos e teólogas possam estar acessíveis a leitores de língua inglesa.

Bernhard Meuser me contou depois que quando leu o texto e a referência à cerveja, decidiu que queria que a Ignatius Press fosse a editora inglesa do Youcat. (In vino veritas, sed in cervisia opportunitas!)

Qual foi sua impressão da atitude do Papa Francisco em relação a este projeto e como se deu a sua colaboração pessoal aqui?

O Papa Francisco, evidentemente, tem um grande apreço e um grande respeito pelo Cardeal Schönborn, que foi quem explicou o projeto para mim. O papa não só demonstrou apoio como também ficou animado com o projeto e prontamente concordou em escrever a introdução para o Docat, da mesma forma como o Papa Bento havia feito para o Youcat.

Quanto à minha colaboração, bem… o meu conhecimento do idioma alemão nunca foi muito bom. Mas foi suficiente para eu revisar a tradução inglesa, compará-la com o original alemão onde necessário e mesmo captar algumas poucas declarações ambíguas no original que precisavam ser – e foram – corrigidas.

A Ignatius Press publicou a versão inglesa do Youcat em 2012 e tenho de dizer que os meus calouros de teologia gostaram bastante quando usamos a obra numa instituição de ensino jesuíta em Tampa, na Flórida. Em seu ponto de vista como editor de língua inglesa, como o Youcat vem sendo recebido nos EUA e em outros países?

Do meu ponto de vista, como padre e educador, fico feliz que esta publicação esteja ajudando tantos jovens, pais e catequistas. Como editor, estou bastante contente – vendemos 800 mil cópias!

O senhor também tem publicado livros-bônus [livros que acompanham outros livros maiores] e materiais para o Youcat. O que dizer sobre o estilo presente nestes catequismos para os jovens que os faz tão atraentes a professores e alunos?

Para mim, o fator mais importante e eficaz no desenvolvimento do Youcat foi a participação direta e ativa dos jovens. Eles não só contribuíram com fotos que tiraram e com citações de seus autores e celebridades favoritos – isso se tornou parte das barras laterais e ilustrações do livro –, mas também trabalharam com os pais e catequistas, fazendo perguntas às quais queriam respostas, lendo com cuidado todo o Catecismo em busca dessas coisas, e ajudando a expressar as respostas em uma linguagem significativa aos demais desta geração.

Em espírito e conteúdo, como o Docat é um sucessor do Youcat?

O espírito, a colaboração dos jovens, a linguagem e as ilustrações atraentes são bem parecidos com o Youcat. O Docat, porém, focaliza a Doutrina Social da Igreja e expande o tratamento dado a este tema pelo Youcat.

De onde o senhor tirou o nome “Docat” e o que ele significa?

O termo vem dos alemães, cuja cultura popular inclui um monte de empréstimos [linguísticos] dos EUA. “Youcat” era a contração para “Youth Catechism” [Catecismo Jovem]. “Youcat” soa muito mais atraente aos jovens alemães – e às pessoas em geral – do que “Jugendkatechismus”. Docat é uma formação a partir do Youcat: “Do” [Faça] (como nas obrigações morais e sociais) e “Catechism” [Catecismo].

O que a Doutrina Social da Igreja significa para o senhor, e por que os jovens deveriam prestar atenção ao assunto?

“Católico” significa não somente “universal”, mas – e isto é ainda mais importante –etimologicamente quer dizer também “de acordo com o todo” ou “orgânico e integrado”. A Torá veio em duas tábuas: três mandamentos relacionados a Deus; sete relacionados ao próximo. E Jesus respondeu à pergunta sobre o “maior mandamento na Lei” com uma resposta dupla: Amar a Deus de todo o coração e amar o próximo como a si mesmo.

A Doutrina Social Católica faz parte integral do ensino católico total e se devemos confiar em Jesus, aquele que a ignora não irá entrar no Reino. Portanto temos de nos esforçar para viver a doutrina e comunicá-la à próxima geração.

Qual a mensagem deste catecismo?

Fazer o bem e evitar o mal. Com um pouco mais de detalhe e ajuda prática, é claro.

Como vê o Docat se tornando uma fonte aos fiéis para a prática da justiça social?

Nas últimas décadas vem havendo um renascimento no catecismo. Cada vez mais os leigos têm contribuído para aquilo que, tempos atrás, encontrava-se principalmente sob a alçada das irmãs e dos padres. Os bispos têm levado suas responsabilidades muito a sério, e o processo de aprovação dos materiais catequéticos se expandiu e se refinou. Consequentemente, existem muito mais recursos disponíveis aos catequistas do que havia nos anos imediatamente pós-conciliares.

Não acho que o Docat pode ou deve substituir o que já existe publicado. Mas pode ser um recurso complementar muito útil. Eu compararia o seu valor com o valor do Catecismo para adultos. (Aliás, descobrimos que muitos adultos que consideram o Catecismo muito denso estão gostando, e muito, do Youcat.) É um material que todos os jovens deveriam ter, uma fonte que pais, professores e catequistas podem remeter em seus trabalhos.

Qual o elemento distintivo deste catecismo que o diferencia dos demais catecismos direcionados aos jovens?

O Santo Padre deu a este catecismo a sua recomendação pessoal. Conforme ele escreve na Introdução: “Eu tenho um sonho: espero que um milhão de jovens, mais ainda, que uma geração inteira, seja, para os seus contemporâneos, uma Doutrina Social em movimento”. O Docat faz parte de um movimento mundial de jovens que dá continuidade ao espírito das Jornadas Mundiais da Juventude de uma forma contínua, preparando-se e sendo evangelistas para os demais.

A entrevista é de Sean Salai, publicada por America, 07-09-2016. A tradução é deIsaque Gomes Correa.

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