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segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Prior dos beneditinos descreve o terremoto em Núrcia, Itália. “É uma experiência muito assustadora ouvir o ranger da terra”..

benedictDia 24 de Agosto era a festa de São Bartolomeu, o que significava que rezaríamos Matinas às 3:45 da manhã. Cerca das 3:30 – quando já estavam todos em pé, graças a Deus – o terremoto atingiu-nos. Já havíamos experimentado tremores de terra nestes 16 anos que vivemos em Núrcia, mas nada como isto.

É uma experiência muito assustadora ouvir o ranger da terra e sentir os edifícios balançar para um lado e para o outro. Todos nós tivemos a presença de espírito para sair imediatamente e reunir num lugar aberto – a praça em frente ao mosteiro. (Veja foto acima) Aí juntamo-nos uns aos outros, ao frio, enquanto tremores sucessivos faziam com que o pavimento de pedra ondulasse debaixo dos nossos pés. Os monges e moradores da cidade reuniram-se instintivamente em torno da estátua de São Bento, que está localizada no centro da praça. Os monges rezavam o Terço juntos e muitos dos habitantes da cidade juntaram-se. Agradecemos sinceramente a Deus por as nossas vidas terem sido poupadas.

Do outro lado das montanhas, em Accumoli e Amatrice, o terramoto demoliu as cidades, deixando um rasto de morte e destruição. Lamentamos a trágica morte dessas pessoas, e choramos pelos seus parentes e amigos. Na verdade, como diz a Escritura: “Deus não é o autor da morte


nem se compraz com a destruição dos vivos.” (Sabedoria 1, 13). Especialmente grave é a morte súbita, porque não há tempo para se preparar. É por isso que São Bento ordenava aos seus monges para “manter a morte diária diante dos seus olhos”. Isto quer dizer que devemos estar sempre preparados, mesmo para uma morte violenta e repentina que vem de forma inesperada no escuro da noite.

A destruição em Núrcia é grave. Não houve apenas um terremoto, mas vários, com tremores de terra contínuos mesmo enquanto escrevo estas linhas (48 horas depois). No mosteiro há uma série de danos superficiais, que são bastante fáceis de reparar, mas tivemos também danos estruturais, o que é muito mais grave. O oficial da Proteção Civil, que veio fazer uma inspeção de emergência na primeira tarde, pediu-nos para sairmos do edifício, porque algumas partes foram consideradas inseguras. Os tremores subsequentes contribuíram ainda mais para os danos.

A basílica de São Bento foi gravemente atingida. A parede atrás do altar de São Bento cedeu e saíram várias pedras no meio do estuque. Se um monge estivesse a oferecer Missa naquele altar, como acontece muitas vezes no início da manhã, teria morrido. A fachada separou-se do corpo da igreja. Nós ainda não sabemos como ficaram os nossos projetos de restauração, nos quais investimos muito trabalho e tantos recursos! A igreja está fechada, e vai demorar meses, até um ano, para reparar.

Claro, a realidade é que vivemos em uma zona sísmica. Algumas pessoas têm furacões, tornados, tufões – nós temos terramotos. Há duas possíveis atitudes diante deste facto. Um deles é uma espécie de resignação monótona. O outro é confiar tudo à providência de Deus.

Os monges fazem um voto de estabilidade. Um dos frutos desse voto é o que chamamos “amor ao lugar”. Nós amamos este lugar. E vamos reconstruí-lo.

Há uma interpretação espiritual que podemos dar ao ‘terremoto São Bartolomeu de 2016’. Vem-me à mente uma antífona da Páscoa: “Ecce terraemotus magnus factus est …” (Eis que houve um grande tremor de terra). A antífona refere-se à reação da Criação perante a Ressurreição de Cristo. Nós também iremos ressuscitar no final dos tempos, quando o Senhor vier para julgar os vivos e os mortos. Costumava ser comum meditar-se sobre as últimas coisas (novíssimos): morte, juízo, Céu, inferno. seria bom para meditar sobre eles novamente.

Há dois símbolos desta história que nos podem ajudar. Primeiro de tudo, a Basílica de São Bento e o altar do santo foram gravemente danificados. A cultura Católica da civilização ocidental está em colapso. Podemos vê-lo diante dos nossos olhos. O segundo símbolo é a reunião das pessoas ao redor da estátua de São Bento na praça, para rezar. Essa é a única maneira de reconstruir.

O Padre Cassian Folsom é o prior do Mosteiro de S. Bento, em Núrcia, e fundador da comunidade de monges beneditinos que aí vive desde o ano 2000. Usam o rito monástico antigo. São talvez a comunidade mais jovem do mundo, com uma média de idades de 34 anos, e até à data não param de aparecer vocações.
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Para ajudar monetariamente os monges beneditinos de Núrcia:https://en.nursia.org/earthquake-relief/
 

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