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segunda-feira, 18 de julho de 2016

O que dizem as últimas pesquisas sobre a fé ‘das novas gerações’?

contra257e1O Deus dos millennials morreu ou está mal. É o que dizem as últimas pesquisas sobre a fé das novas gerações. São cada vez mais os jovens que se declaram ateus, agnósticos ou indiferentes, mesmo que provenham não de um histórico laico, mas de uma educação católica (e nunca de uma má educação).

Quase três em cada dez jovens, entre os 18 e os 29 anos de idade, “parecem ter removido da sua carteira de identidade uma referência última e transcendental”. E, entre os muitos que continuam se professando crentes, prevalece um substancial desinteresse pela fé e pela oração: mais do que na dimensão espiritual, o catolicismo sobrevive como herança cultural ou laço social, sem muitos envolvimentos interiores.

Embora com ênfases diferentes, o aumento dos não crentes no mundo juvenil é registrado por livros e revistas que se interrogam sobre o porte do fenômeno. Mais interno à Igreja, é o livro Dio a modo mio [Deus a meu modo], que apareceu no último número da revista La Civiltà Cattolica, que faz referência a 150 testemunhos recolhidos por Rita Bichi e Paola Bignardi.  


De marca laica é a nova e articulada pesquisa publicada pela editora Mulino, organizada por Franco Garelli, o sociólogo católico aluno de Luciano Gallino, que entrevistou quase 1.500 jovens representativos das várias áreas da Itália (Piccoli atei crescono [Pequenos ateus crescem]).

Para além do método diferente e da inspiração diferente, não muda a fotografia de uma paisagem juvenil cada vez mais secularizada, em que a fé, mesmo quando existe, se torna cada vez mais subjetiva e evanescente.

“Uma geração sem Deus?” O ponto de interrogação é obrigatório – como está no subtítulo da investigação da editora Mulino – porque a busca do sagrado é uma característica irrenunciável entre os jovens, até mesmo sob formas imprevisíveis.

Quem mais desaparece entre os mais jovens é o Deus com letra maiúscula, o Senhor aterrorizante do Antigo Testamento, substituído por outro mais modesto, o deus minúsculo das pequenas coisas, que não é mais uma entidade repleta de mistério, mas tem a ver com a busca de uma harmonia pessoal.

No lugar da dimensão da transcendência e da eternidade, entra a da imanência e a temporalidade. E o Deus do temor dá lugar à figura do amor. No fundo, aconteceu com Deus aquilo que aconteceu com o pai, defende uma das jovens entrevistadas por Garelli. “Antigamente, eles eram mais pais e chefes. Agora, são mais permissivos e se deixam submeter pelos próprios filhos. Porque, se pensamos em Deus como nosso pai, sabemos que Ele nos quer bem mesmo que nós nem Lhe demos bola”.

Mas é preciso ter cuidado para não ceder ao lugar-comum sobre a superficialidade e sobre a apatia moral dos mais jovens: muitos deles rejeitam a primazia da não crença, que eles devolvem de bom grado àqueles que vieram antes deles. Nós, “a primeira geração incrédula”?

Não brinquemos, responde a maioria dos jovens entrevistados. A idade de ouro da fé – cultivada pelos avós, conservada pelos pais e dissipada pelos filhos – é uma representação enganosa que toma um caminho equivocado. Porque quem rompeu o pacto religioso, com os seus comportamentos oscilantes e marcados pelo conformismo social, foram a mãe e o pai.

E, também no campo da religiosidade, repropõe-se a aliança geracional com os avós, que, muitas vezes, se verifica na política ou em outras áreas da existência: o modelo dos avós é julgado como criticável e culturalmente distante, mas nítido e coerente. Enquanto o comportamento dos pais e das mães é incerto, desfocado, intermitente. Em uma palavra, decepcionante no plano do testemunho.

“Nós levamos a bom termo aquilo que foi semeado no passado”, diz um jovem não crente. A ruptura da tradição é uma herança, não uma elaboração original. “A minha geração não é incrédula, mas sim irritada por causa do senso de abandono profundo e visceral”, responde outro millennial.

E a síntese chega de uma jovem da sua idade: a religião é mistério e confiança, e nós não podemos nos permitir nem o mistério nem a confiança. Nada de geração superficial, acostumada a surfar na onda do digital. Nada de desorientação ética. É proibido confundir a fuga de Deus com a perda de uma demanda espiritual.

A busca de sentido e do “além da imanência” ocorre através de modalidades e rituais diversos. A oração, por exemplo. A pesquisa de Garelli nos mostra que, se é verdade que 30% dos jovens não rezam nunca, a pulsão ao Pai Eterno também pode mover uma parte dos jovens não crentes, que, talvez, renunciam ao Pater Noster, mas não ao silêncio, à meditação, à leitura da Bíblia ou ao atravessamento dos meandros desconhecidos da própria interioridade. E o modo de rezar também muda entre os católicos mais convictos.

Entre crentes e não crentes, podem existir zonas de contiguidade impensáveis há algumas décadas. E essa é outra figura original dos millennials, que derrubam muros e perímetros do passado, substituídos por fluxos contínuos entre um campo e outro.

“É uma geração pós-ideológica”, diz Garelli. “Esses jovens se livraram dos pesos da história. E se abrem às razões dos outros, embora não as compartilhem”. O anticlericalismo à moda antiga parece ser uma moda decaída; os profissionais do ateísmo, figuras militantes ultrapassadas e um pouco indigestas.

“Embora bem convencidos de não terem um céu acima deles, muitos jovens não crentes consideram legítimo crer em Deus, mesmo na sociedade contemporânea, negando, portanto, a ideia de que a modernidade avançada é o túmulo da religião. E, vice-versa, muitos crentes estão conscientes de como é difícil professar uma fé religiosa nas atuais condições de vida.”

O que leva um jovem a se afastar de Deus? O agnosticismo se aninha, especialmente, entre os filhos dos separados, “entre aqueles que viveram a ruptura dos laços familiares ou a perda da certeza afetiva”, explica Garelli.

O que racha a fé podem ser as fraturas existenciais, como a perda do trabalho ou uma condição precária. Mas também a estranheza em relação a uma Igreja percebida como hierarquia pomposa e injusta, reino do privilégio e da riqueza, e não dos últimos. E isso apesar da revolução de Francisco, o papa das periferias e dos simples.

Ou, melhor, um fato que surpreende é que há bolsões de resistência em relação a uma figura como Bergoglio, mas que é criticado não tanto pelos ateus, mas sim por uma pequena parte da minoria dos crentes convictos. E é assim que o papa argentino parece estar mais à frente de algumas áreas da sociedade italiana que o criticam por “privilegiar o social em comparação com o sagrado”, por “colocar crentes e não crentes no mesmo plano” e por “encorajar uma presença estrangeira cada vez mais pesada”. Contradições internas àqueles que se professam católicos praticantes.

O Deus dos millennials não está muito bem, mas a Itália ainda é o país onde “até mesmo os ateus são católicos”, casam-se na igreja e preferem o funeral religioso. O núcleo duro dos jovens italianos não crentes (28%) ainda é pequeno em comparação com países como Suécia, Alemanha, Holanda, Bélgica e França, onde “o vento da morte de Deus já sopra com força”, chegando, entre os mais jovens, a percentuais ao redor dos 50/65% (enquanto nos fervorosos Estados Unidos os céticos não chegam a 18%).

O que chama a atenção na Itália é o ritmo de crescimento dos agnósticos (não chegavam a 10% na virada do século), talvez favorecido pelo clima cultural em mudança. Hoje, os jovens italianos se sentem mais livres para negar a Deus, advertindo “que desapareceu o estigma que, antes, tocava incrédulos e descrentes”.

Além disso, a religiosidade, entretanto, continua nos bastidores, “embora seja um pano de fundo cada vez mais distante do palco da vida”.

Neste momento, substancialmente, não se registram sobressaltos. Esperemos para ver como serão os próximos capítulos.

A reportagem é de Simonetta Fiori, publicada no jornal La Repubblica

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