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terça-feira, 24 de novembro de 2015

Uso das armas como “única solução” contra o Estado Islâmico? A Igreja é contra.

Dead soldier, first world warNas redes sociais, a guerra tem sido apontada por muitos internautas católicos como “a única solução” para “acabar com o Estado Islâmico”.

Mas será que é?

O Vaticano tem se declarado reiterada e explicitamente CONTRA uma guerra, com base no próprio conceito de “guerra justa”, cujas premissas, segundo o Catecismo da Igreja Católica (cf. CIC, §2309), são quatro e devem ser simultâneas:

Que o dano infligido pelo agressor à nação ou à comunidade de nações seja durável, grave e certo.
Que todos os outros meios de pôr fim a tal dano se tenham revelado impraticáveis ou ineficazes.
Que estejam reunidas as condições sérias de êxito.
Que o emprego das armas não acarrete males e desordens mais graves do que o mal a eliminar.
Consideremos cada uma destas condições no contexto do combate ao Estado Islâmico.

1. QUE O DANO INFLIGIDO PELO AGRESSOR À NAÇÃO OU À COMUNIDADE DE NAÇÕES SEJA DURÁVEL, GRAVE E CERTO.

Esta condição se verifica. O grupo jihadista tem se expandido não apenas territorialmente, mas também capilarmente por todos os continentes mediante estratégias de guerrilha ideológica, usando desde estruturas religiosas físicas até uma vasta gama de canais virtuais para recrutar militantes e organizar atentados. Além disso, tem conseguido a adesão de outros grupos terroristas sanguinários, como o selvagem Boko Haram, da África Ocidental, atualmente mais mortífero que o próprio Estado Islâmico.


2. QUE TODOS OS OUTROS MEIOS DE PÔR FIM A TAL DANO SE TENHAM REVELADO IMPRATICÁVEIS OU INEFICAZES.

Esta condição não se verifica. São imprescindíveis pelo menos três respostas alternativas não bélicas para enfraquecer e derrotar o agressor, e elas ainda não foram dadas adequadamente:

2.1. Resposta logística

O cardeal Angelo Bagnasco, presidente da Conferência Episcopal Italiana, propôs um “embargo planetário” para enfraquecer o Estado Islâmico.

“A maneira certa e mais eficaz eu não acho que sejam as armas, e sim o embargo planetário, concreto e monitorado, contra essas forças obscuras como o Estado Islâmico. Do ponto de vista político, ninguém deveria falar com essas pessoas; elas têm que se sentir isoladas. Do ponto de vista comercial, ninguém deveria comprar o petróleo barato deles nem vender armas e comida para eles. O isolamento global, monitorado, sem meios termos e estritamente controlado pela ONU, eu acredito que é firmemente possível e que é a única resposta eficaz”.

De fato, o grupo terrorista conta no mínimo com a omissão de governos de dezenas de países. O Estado Islâmico não apenas se apossou de campos de petróleo iraquianos cuja produção é facilmente vendida a compradores estrangeiros, como também está por trás de uma rede de contrabando de riquezas arqueológicas e culturais (saqueadas das cidades milenares que invadem), tráfico de drogas (como as cápsulas de captagon, que eles próprios produzem, consomem e vendem para países como a Arábia Saudita) e tráfico de mulheres e crianças (com clientela em todo o Oriente Médio). O grupo também é abastecido de armas, mantimentos e recursos tecnológicos trazidos de fora dos seus domínios, além de operar transferências bancárias internacionais com as quais mantêm agentes em dezenas de países, inclusive do chamado “primeiro mundo”.

Um embargo planetário decidido e firme abalaria drasticamente a organização.

2.2. Resposta cibernética

O grupo de hackers ativistas Anonymous anunciou na semana passada que vai “caçar” os membros do Estado Islâmico e já começou derrubando 5.500 contas no Twitter ligadas ao EI. É só o primeiro passo de uma guerra cibernética focada em destruir o principal mecanismo de recrutamento do grupo terrorista, que atrai a maioria dos seus jovens militantes através de fóruns, chats e redes sociais.

Além de minar as ferramentas de recrutamento do grupo, a estratégia do Anonymous deixaria exposta a hipocrisia dos líderes jihadistas, que, enquanto declaram seu ódio ao Ocidente, não se fazem de rogados ao usar os recursos e tecnologias ocidentais que eles dizem que “afastam os fiéis de Deus”.

O Anonymous poderá ainda expor as finanças, comunicações e logística do grupo terrorista, além de informações de inteligência reunidas (mas não compartilhadas suficientemente) por várias organizações governamentais. Em anos recentes, aliás, o grupo hacker já invadiu sites de governos como o do Canadá, da Austrália, da Tunísia e da Turquia.

O risco desta operação é que o Estado Islâmico leve a guerra cibernética a sério e melhore suas estratégias, tornando o combate online muito mais complexo e perigoso para um mundo que, assim como eles, também depende da internet em sua atual organização sócio-econômica.

2.3. Resposta religiosa

O mesmo cardeal Bagnasco reforçou a importância crucial de que o mundo islâmico também “levante a voz e condene esta barbárie”. Não se trata de novidade alguma, já que o papa Francisco repete este apelo aos líderes muçulmanos com notável frequência.

E vários dos líderes muçulmanos mais influentes do planeta estão fazendo a sua parte e denunciando com clareza a selvageria e impiedade dos terroristas. Como o Estado Islâmico se diz seguidor do islã sunita, é particularmente veemente toda declaração feita por líderes religiosos dessa corrente, como Ahmed al-Tayeb, o grande imã da universidade egípcia de Al-Azhar, uma das instituições sunitas mais prestigiadas do planeta. Al-Tayeb tem se pronunciado com frequência, inclusive em encontros formais com outros líderes muçulmanos, contra “os crimes bárbaros cometidos em nome dos costumes desta religião” e declarando que os países muçulmanos não podem ignorar “a sua responsabilidade no aparecimento do extremismo que fez nascer organizações como a Al-Qaeda e outros grupos armados”. Ao mesmo tempo, ele denuncia que parte da responsabilidade é também do Ocidente, citando a invasão americana do Iraque e a ingerência ocidental na Síria e pedindo que a coligação antijihadista “combata os países que apoiam o terrorismo financeira e militarmente”.

Iyad Madani, líder da Organização para a Cooperação Islâmica, também tem condenado com força os crimes terroristas do Estado Islâmico, atribuindo-os à “decadência intelectual, fragmentação política e abuso do islã, a grande religião da misericórdia”. Suas declarações são influentes porque a organização reúne 57 países e é o maior bloco de países muçulmanos que existe no planeta.

As respostas oficiais de líderes islâmicos são imprescindíveis para que os seguidores do alcorão em todo o mundo rejeitem as interpretações radicais do seu livro sagrado. Para isso, Al-Tayeb tem usado termos bastante fortes ao se pronunciar sobre a interpretação divulgada pelo Estado Islâmico: ele define o grupo jihadista como satânico.

Ao mesmo tempo, o Santo Padre tem insistido muito na necessidade da convivência civilizada, respeitosa e fraterna entre as religiões, independentemente da sua discordância teológica. O Vaticano fomenta abertamente as boas relações ecumênicas e inter-religiosas desde o concílio Vaticano II. João Paulo II fez história ao organizar o primeiro encontro inter-religioso em Assis, em 1986, repetido depois por Bento XVI e seguido por Francisco ao convidar os líderes políticos de Israel e da Palestina para fazerem um impensável encontro de oração no Vaticano. O Pontifício Conselho para a Cultura vem realizando há vários anos a iniciativa Pátio dos Gentios, encontros entre crentes de diversas religiões e não crentes, para discutirem juntos temáticas culturais, filosóficas, sociais, políticas e econômicas, além de concretizarem iniciativas humanitárias em parceria. O cardeal Pietro Parolín, secretário de Estado vaticano, declarou neste mês que os muçulmanos deverão participar das celebrações do Jubileu da Misericórdia, convocado pelo papa Francisco.

A resposta religiosa “oficial” é determinante para combater as manipulações sectárias dos conteúdos religiosos por interesses e objetivos particulares.

3. QUE ESTEJAM REUNIDAS AS CONDIÇÕES SÉRIAS DE ÊXITO.

Esta condição está muito longe de verificar-se. Nem sequer existe acordo entre os países capazes de combater belicamente o Estado Islâmico no tocante à estratégia de ataque.

Para começar, os EUA e seus aliados ocidentais têm particular interesse em derrubar o presidente sírio Bashar Al-Assad, enquanto a Rússia quer mantê-lo no poder. A Turquia está “aproveitando” a “desculpa” de combater o Estado Islâmico para bombardear os curdos. A Arábia Saudita “aproveitou” a “desculpa” do Estado Islâmico e da Al-Qaeda na Península Arábica para bombardear o Iêmen, piorando o caos que já era tétrico no país. Quanto à “modalidade” de guerra, os EUA e seus aliados defendem ataques exclusivamente aéreos, enquanto a Rússia e a maioria dos especialistas, inclusive ocidentais, afirmam que os ataques por terra seriam imprescindíveis para destruir as bases jihadistas.

Ainda que houvesse êxito inicial, o histórico da política norte-americana de armar grupos violentos contra outros grupos violentos é de reviravoltas funestas (entre as quais o fortalecimento do regime de Saddam Hussein, o surgimento da Al-Qaeda e o poderio do Taliban, todos anteriormente “ajudados” pelos EUA e depois transformados em pesadelos). As invasões e intervenções dos EUA no Oriente Médio, por fim, têm sido invariavelmente um retumbante fracasso de médio a longo prazo, sendo o Iraque o exemplo mais evidente no momento.

Mais problemático ainda: o Estado Islâmico não é apenas um exército físico e pontualmente localizado, mas uma ideologia capilarmente difusa e capaz de se reestruturar em prazo curto caso não sejam dadas as respostas logística, cibernética e religiosa citadas no ponto anterior.

4. QUE O EMPREGO DAS ARMAS NÃO ACARRETE MALES E DESORDENS MAIS GRAVES DO QUE O MAL A ELIMINAR.

A versão laicista da história fez questão, ao longo dos últimos 300 anos no mínimo, de tergiversar uma série de fatos relacionados com a ação secular da Igreja, em particular a Inquisição e as Cruzadas. Estas últimas, em particular, foram pintadas apenas como uma sucessão de guerras covardes e motivadas pelas ambições materiais e ideológicas da Igreja.

O atual horror do Estado Islâmico tem tornado mais compreensíveis as verdadeiras raízes das Cruzadas, que, basicamente, foram uma justa reação a 400 anos de abusos sofridos pelos cristãos sob domínio muçulmano na Terra Santa (cf. este artigo da Aleteia baseado na tese do acadêmico britânico Paul Crawford).

No entanto, o fato é que as Cruzadas, no fim das contas, não apenas não resolveram a situação dos cristãos na Terra Santa como a pioraram, além de acarretarem, como toda guerra, uma série inegável de abusos, covardias e degenerações em prol de interesses particulares que nada tinham nem de religioso nem de humanitário.

O contexto, além do mais, era muito diferente do atual. Se na época era compreensível a concepção de uma cruzada, hoje temos uma noção mais completa do que implica uma resposta bélica e da necessidade prévia de respostas não bélicas para que seja encarado o cerne das agressões, e não apenas as suas concretizações externas.

A propósito: tem sido comum nas redes sociais, entre os defensores da guerra imediata contra o Estado Islâmico, a afirmação de que “foi graças às Cruzadas que a Europa se manteve cristã”. Na realidade, as três batalhas decisivas que impediram o avanço islâmico na Europa foram ou anteriores ou posteriores às Cruzadas: a de Poitiers, que barrou a invasão da França de Carlos Martel pelo Califado de Córdoba em 732; a de Lepanto, em que a Liga Santa derrotou a expansão mediterrânea do Império Otomano em 1571; e a de Viena, em 1683, em que a coalizão polaco-austro-alemã venceu o mesmo Império Otomano e reverteu sua expansão pela Europa do Leste.

É óbvio e inegável o direito à legítima defesa e é imperativo que a selvageria do Estado Islâmico seja decididamente combatida e eliminada.

O que não é nada óbvio nem inegável é que a “única forma” de legítima defesa diante do horror do Estado Islâmico seja o uso das armas como defendido por certos governos e por certos comentaristas.

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